Pensamentos e Reflexões

Malafaia, Feliciano, Perdão e a Igreja

Desde que voltei de Belo Horizonte estou com esse texto no coração, e precisava escrevê-lo.

Meus amigos sabem o quanto essa situação envolvendo pastores e o movimento LGBT me incomoda, bem como a postura de ambos os lados. E fato é que eu, uma pessoa que não consegue ficar em cima do muro, me posicionei e falei duramente contra esses dois pastores envolvidos: Malafaia e Feliciano.

Queria que meus amigos que não são cristãos soubessem que existe outro evangelho, senti vergonha e desejava limpar a barra dos evangélicos, talvez eu quisesse mesmo era limpar a minha barra.

Meu coração se endureceu contra eles, por todas as lembranças que tenho, porque eu vi alguém que amo muito sofrer quando se descobriu homossexual, porque eu penso que o fardo de ser diferente já é pesado demais, porque no fundo meu desejo é abraçá-los e dizer que Deus os ama, e que nos braços do Pai não há exclusão!

Não meu amado, não sou simpatizante da causa. Só acredito, de verdade, que a igreja perdeu uma grande oportunidade de derramar o amor, nos nivelamos por baixo, e ajudamos a estender a lona do circo.

Enfim, mas não é sobre minha miserável opinião que quero falar!

Quero contar o que Deus me disse a respeito da minha posição contraria aos pastores Malafaia e Feliciano.

No culto de abertura do congresso em BH, após Cindy Jacobs ministrar tivemos um momento de oração, e comecei a orar pela igreja, pela unidade do corpo. Quando ouvi uma voz doce: “Malafaia e Feliciano também são a minha igreja!”

Irmãos amados! Confesso que me assustei, não achei que Deus estivesse realmente me dizendo aquilo. Ele repetiu: “Malafaia e Feliciano também são a minha igreja!”

Entendi que Ele queria o meu arrependimento. E eu chorei, me arrependi de ter me posicionado contra a igreja, que não é minha, ela tem um DONO zeloso, que pagou um ALTO preço por ela!

Pedi perdão ao Senhor, e quero fazer isso usando o meio que usei tantas vezes para me posicionar contra esses dois pastores. Quero pedir perdão também aos amados, com os quais debati defendendo minhas opiniões! Perdão!!!

As minhas opiniões mudaram? Passei a concordar com o que eles dizem? Passei a entender a forma agressiva de falar? Não. Eu ainda levanto a bandeira amor e da tolerância. Mas a minha postura diante da situação mudou, não vou defender o que penso em palavras, mas de joelhos, diante DAQUELE que nos amou, todos nós, sem distinção.

Termino esse texto encorajando aos valentes amigos que tenho, que assim como eu, tem tentado nadar contra a correnteza que pede uma consciência manipulável. Deus conta conosco, mas nossa luta não é contra a carne, nem sangue. E a igreja tem um DONO que TUDO vê!

Vê quem somos, e se importa com as nossas opiniões e com aquilo que pensamos. Ele não falou comigo apenas porque se importa com a UNIDADE da igreja, mas também porque não deseja que meus pensamentos e ideais me conduzam ao caminho do idealismo sem fé, para o caminho que me afasta da SUA soberania e de SEU poderio sobre tudo e todos.

Seu amor é infinito, e é infinito com o Malafaia, com o Feliciano, com qualquer pecador, o amor do Pai é infinito inclusive comigo, a mais miserável deles!


Dançando Com Deus

Os últimos meses passaram como um vento forte, não foram raras as vezes em que me senti tragada por uma avalanche, me senti tão cansada que a única coisa que eu queria era uma calçada para me abandonar.

Na medida que meu trabalho secular vai sugando a minha vida, a angustia só cresce dentro do meu coração. O sentimento de que os melhores anos da minha vida estão sendo gastos com o que não importa me confronta, o desejo de viver e morrer por algo maior do que eu me consome vorazmente, o medo de não deixar nada para as próximas gerações, de não mudar nada, de que o sistema tenha me engolido me assusta. Tenho medo. Medo de olhar para trás e me envergonhar, medo de não deixar um legado, medo de não ter motivos para dizer: “Combati o bom combate.”

Eu pareço uma rocha, mas no fundo, ainda sou uma menina sensível que alimenta o sonho quase infantil de mudar o mundo!

A gratidão nunca se afasta do meu coração, mas a angustia também não. Minha alma errante sempre está inquieta, cheia de inadequação, cheia de perguntas, dúvidas, incertezas e com um único sonho: mudar o mundo!

Quem poderia me compreender? Acho tudo isso tão louco que não ouso dividir. Vejo as pessoas tão diferentes de mim que não consigo falar sobre tudo o que vai no meu coração. Não acredito que meus sentimentos sejam compreensíveis uma vez que nem eu os compreendo.

Quem pode compreender uma pessoa que tem tudo, que é feliz, mas que carrega no olhar a saudade de algo que nunca viveu? Que sonha em participar de uma revolução, que deseja pintar o rosto e sair para a luta, quem compreenderia alguém que sente inveja daqueles que morreram por algo maior? É louco demais.

Mas existe alguém que entende o meu coração, além disso, Ele vê meu coração, Ele me vê, como sou, assim disforme, confusa, aflita, angustiada, errante. E ainda assim, dessa forma, Ele me ama. Parece lugar comum dizer isso, mas pra quem se vê como eu me vejo, saber disso é LIBERTADOR.

Esse é o pano de fundo de uma das experiências mais doces que tive com o REI. Recentemente, em um momento NOSSO, sim, porque meu culto, já há algum tempo, é um encontro NOSSO. Tenho praticado esse desprendimento da realidade, e na maioria das vezes, nem percebo o que acontece do lado de fora, e tenho experimentado momentos maravilhosos na PRESENÇA do Rei.

No meio desse emaranhado de sentimentos, desejos e incertezas, Ele veio até mim, eu estava sentada, Ele então gentilmente me tirou pra dançar. E nós dançamos ao som de uma música do céu, com a leveza que apenas o Espírito Santo é capaz de produzir.

Eu que sempre fiz uma pergunta para Deus: “Porque eu sinto tudo isso? Porque eu?”, e que Ele nunca respondeu, fiquei emocionada quando Ele respondeu a pergunta que nunca fiz:

“Eu Sou. Eu Sou o seu pastor, Sou o seu amigo fiel, Sou seu marido, Sou sua mãe amorosa, Sou seu Pai que não te abandona, Sou seu sonho de mudança, Sou sua revolução desejada, Sou sua resposta para este mundo, Sou seu abrigo, Sou sua rocha, Sou seu braço forte, Sou sua alegria, Sou seu filho que não chegou. Eu Sou e Eu te basto.”

O amor de Cristo não só me constrange, me assombra. Nem sei quanto tempo levei para assimilar o que Ele havia me falado, aquele instante foi tão precioso, que eu não queria me mover, eu não queria perder aquele momento.

Você percebe que minhas dúvidas não causam separação entre nós? Que não há nada em mim que O impeça de se achegar e se aproximar? Ele nos atrai porque nos deseja, Ele nos conduz ao lugar de encontro porque nos ama. Eu ainda não sei porque me sinto assim, porque sonho e desejo dessa forma, mas quem ELE é faz todo o resto perder o papel de destaque, quem Ele é reordena todas as coisas.

E é interessante que quanto mais o tempo passa e na medida que o esclarecimento sobre fé e vida cristã se fortalecem dentro de mim, compreendo mais claramente o quão singular é o relacionamento que Deus tem estabelecido comigo. E é assombroso demais Ele desejar esse relacionamento.

Ele me ama a despeito de QUALQUER situação, e me compreende. Ele é TUDO o que eu preciso e anseio, nEle consistem TODAS as coisas, nEle consistem TODAS as respostas!

Confesso que pensei: “Deus está me deixando ir!”. Mas Ele não deixa nunca, Ele espera o momento exato e vem docemente me encontrar. Não sei porque ainda me surpreendo, talvez porque tenha medo de perder o assombro diante da graça que Ele sempre derrama sobre mim.

As dúvidas, as dores, as feridas, as incertezas, nossa luta diária não podem roubar de nós o romantismo, e o assombro diante do amor do Pai. Não deixe que as suas circunstâncias te endureçam, mas permita que as suas circunstâncias te quebrem e te conduzam ao lugar de encontro com o NOIVO.

Deixe que Ele te conduza pelo salão ao som de uma música do céu, uma música só sua e DELE. Deixe que o beijo de Deus alcance sua face, feche os olhos quando isso acontecer, Ele também fecha os olhos quando nos beija!

“Maravilhada, extasiada eu fico ao ouvir Seu nome: Jesus!”


O Beijo De Deus

Que cor tem um beijo? Qual é seu formato? Que aparência tem? Quantos quilos pesa? O beijo é sólido, líquido ou gasoso? Tem quantos centímetros de comprimento? Qual é o grau de transparência do beijo? Qual é sua temperatura? Se bater um vento forte, carrega o beijo para longe? É inflamável? Desbota com o tempo? O beijo anda, nada ou voa? Flutua na água? Beijo enferruja? Pode-se esconder em algum lugar sem que estrague? É portátil? É duro ou mole? Derrete no calor? Mofa? Beijo cresce se regar? Muda como uma borboleta? É comestível?

Afinal… como é um beijo? Por favor, descreva-o para mim.

Difícil, não é? Desista, você não vai conseguir. E isso porque o beijo é algo que não tem como ser descrito. Não há como se fazer um retrato falado de um beijo. Nem como se guardar numa caixa. Como se carregar no bolso. É impossível encher uma caixa de beijos. Colher um em uma árvore. Pôr em cima da mesa e ficar observando cada detalhe dele. Simplesmente porque beijo é algo que não existe.

Como assim, não existe?

Claro, pois se o que existe é aquilo que podemos pegar, cheirar, medir, descrever, apalpar, enxergar… o beijo não existe.

Só que… a humanidade ama o beijo. Venera o beijo. Se há algo de que absolutamente todo mundo se lembra é como foi o primeiro beijo, de tão marcante. Filhos pedem beijo de seus pais. Pais ficam tristes se os filhos saem de casa sem dar beijo. Casais enamorados, se deixar, passarão horas imersos em beijos. Nada faz mais falta para quem ama sem ser correspondido do que o beijo do ser amado.

E beijo tem significado, também. Beijo nos lábios significa amor exclusivo. Beijo no rosto é amizade. Beijo na testa é carinho. Beijo na mão é galanteio. Beijo nos pés é humildade. Beijo no espelho é vaidade. Beijo na foto é saudade. Beijo em troféu é vitória. Beijo no chão é amor à pátria. E por aí vai.

Logo, é claro que beijo existe! Mas… ao mesmo tempo, não existe… Que nó nos neurônios, meu Deus…

Tudo bem, vamos tentar um pouco mais. Vamos visualizar uma situação em que ocorra um beijo. O beijo é algo formado pelo toque de lábios em alguma coisa. Segundo o dicionário, beijo é: “Toque de lábios, pressionando ou fazendo leve sucção”. Então não existe o beijo. Existem lábios tocando algo. Mas lábios por si só não são um beijo. Se eu arrancasse meus lábios e os pusesse na palma da mão você diria que estou “segurando um beijo”? Não, não diria. Se alguém estica os lábios na posição tradicional mas não faz barulhinho aquilo é um biquinho, não é beijo. Então dizer que beijo pode ser descrito como lábios por si só é algo errado. Aí chega uma pessoa e fala que beijo sáo lábios tocando lábios. Mas então respiração boca-a-boca é beijo? Não, não é. Então beijo são lábios tocando a pele. Só que tirar uma farpa do dedo com a boca não é beijo.

É, desisto. Beijo não existe.

Mas se eu me lembro de um beijo que dei hoje de manhã! Se me lembro do primeiro beijo que dei na vida! Se me lembro do primeiro beijo que dei na minha filha na sala de parto! Se me entristeço pelos beijos que nunca mais darei naquela pessoa querida que partiu! Sim, beijo existe! Claro que existe! Mas aí chega alguém que afirma só acreditar que algo existe se puder tocar, cheirar, ver, provar cientificamente. E eu diria, então, a ela: prove-me que o beijo existe. Esse cético jamais conseguiria. Pois ele me mostraria fotos, desenhos e imagens de uma boca encostando em qualquer outra coisa. Mas aquilo continuaria sendo uma boca. Portanto, eu diria a esse cético ou viciado em provas científicas: “Desculpe-me, mas, pelos seus critérios… beijo não existe. O que estou vendo é uma boca e não um objeto chamado beijo“.

Com Deus é igual.

Eu não vejo Deus. Não o toco. Não sei seu formato. Não conheço sua textura. Não vislumbro sua aparência. Não tenho como segurá-lo em minhas mãos. Não tenho nenhuma expectativa de ter um encontro visível, concreto, sensorial com o Senhor até o dia de minha morte. Mas, ah, que experiência extraordinária é quando Deus se faz presente! Como é impossível estar na presença do Criador do universo sem ser afetado de alguma forma! Como é possível estar com Ele e não ser tocado por Ele? Muitos dizem que Ele não existe porque não pode ser cientificamente, cartesianamente, pragmaticamente visto, tocado, segurado, distinguido. Se me pedirem para mostrar uma foto dele eu não terei como fazer. Exatamente como um beijo.

Quando acontece um beijo entre você e a pessoa amada, qual é a sensação? É fantástico, não? Pois eu te digo a sensação fantástica que é quando Deus acontece em nossa vida. Não, não tenho como provar cientificamente que Ele existe. Mas jamais vou me esquecer da primeira vez que o Senhor me tocou. É só eu sei a falta que Ele me faz. O tanto que mudou minha vida. O que sinto quando faço algo que sei que o entristece. A alegria que me invade quando me perdoa. O gozo que me inunda quando o busco. As línguas que falo quando me enche. A esperança que brota quando leio Sua Palavra. O calor de seu abraço. O conforto que vem de nossas conversas. O tudo que Deus é, faz, transforma e significa.

Se digo a qualquer ateu que o beijo não existe e ele se rirá de mim. Mas se qualquer ateu disser a mim que Deus não existe eu me rirei dele – pelas exatas mesmas razões.

Sabe, no final das contas, lendo a Bíblia, me ocorre que existe uma maneira bem concreta de se provar que beijo existe. E, se qualquer cético me pedir uma prova palpável disso, eu terei como dar a ele. Bastará eu me lembrar que Deus amou o mundo de tal maneira que o beijou com um beijo de amor ágape que pôde ser visto, tocado, segurado, abraçado, esbofeteado, açoitado, crucificado. Um beijo que sangrou. Que foi furado. Um beijo que teve as feridas nas mãos e no lado tocadas por um incrédulo. Um beijo cheio de significado, que se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade – e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.

Um beijo a todos vocês que estão em Cristo!

Fonte: Maurício Zágari


A Espiritualidade Que Desejo

Apesar de tudo, insisto. A despeito de mim mesmo, teimo. Insisto e teimo por querer a eternidade. Alguém plantou transcendência em minha alma.  Mesmo diante do pavor de confundir esperança com alucinação, não consigo dissimular minha obstinação pelo que está além de mim.

Preciso tornar-me peregrino que se descalça diante do Sagrado. Deixar que o Mistério me deixe atônito. Desfazer-me de panos velhos para não remendar-me com os andrajos de uma religiosidade rota. Trocar odres antigos pelo vinho novo do Espírito.

Quero uma espiritualidade que enfrente a verdade de existir com tudo o que a vida trouxer de bom ou de ruim.  Desejo viajar até as fronteiras do universo não como fuga, mas como sede da grande Utopia – a mesma que move os Santos. Quero soprar o pavio fumegante da minha voz profética para ser farol, mesmo em um vilarejo distante.

Anseio por uma espiritualidade que esgote a soberba de minha onipotência e permita que a mesma bruma que empurra a caravela empine a bandeira do meu combate. Preciso repensar a coragem para que a minha força venha da fragilidade.

Almejo uma espiritualidade suave: delicada como a mão da criança, indefesa como o olhar do cordeiro e despretensiosa como o fluir do ribeiro. Necessito esvaziar-me do desejo de brilhar – que a oração mais pura fique escondida no quarto onde durmo. Ainda hei de encarar o apelo do poder como maldição. Qualquer glória só a Deus pertence – invejá-la é diabólico.

Anelo por uma espiritualidade que não se encaramuja. Que abre mão de palavras piedosas como disfarce e procura a magia de viver na encarnação, fazendo do corpo o lenho que transforma água amarga em doce.

Suspiro por uma espiritualidade sem fronteiras. Quero rasgar mapas para chamar o Próximo de meu irmão. Exorcizar o medo de perder a reputação. Abrir espaço para que o excluído se sinta acolhido. Sonho entender como o grão de trigo morre sem murmurar – por saber que carrega o futuro em suas entranhas.

Aspiro por uma espiritualidade que ame igualmente o belo e o disforme, o funcional e o deficiente; o lépido e o claudicante. E alimente a alma com as cores do cotidiano: azul, preto, rubro, amarelo, cinza, branco.

Ambiciono navegar. Já que viver nunca é preciso, abrir mão de atracar em qualquer Porto Seguro.  Sem âncoras, continuar a singrar o futuro como um oceano de possibilidades.

Fonte: Ricardo Gondim


Relevar É Preciso

Eu relevo, tu relevas, ele releva, nós convivemos.

Relevar é uma arte democrática e popular, que todo mundo pode e consegue exercer, se quiser fazer. Sim, porque é preciso uma grande dose de boa vontade.

Relevar é um dos grandes segredos dos casamentos que duram décadas, de amizades que perduram, da nossa permanência em empresas ou igrejas, de relacionamentos entre pais e filhos, primos e primas, irmãos e irmãs. Mas até mesmo nas nossas relações menos íntimas, relevar também é preciso.

O mau humor do porteiro do prédio, o pisão no pé que você levou no metrô, aquele amigo bafudo, uma trombada na rua. Relevar é preciso. Humilhação, omissão, ignorância, maledicência, covardia, maldade alheia, fofoca. Relevar e perdoar é preciso.

É preciso relevar o papo repetitivo das vovós, é preciso relevar a falta de paciência dos vovôs, é preciso relevar a TPM feminina, e o mau humor depois que o time perde. Relevar é preciso.

A palavra dita na hora errada, a palavra dita de forma errada, o domínio do controle remoto, a folga do amigo espaçoso. Pés no seu sofá, relevar é preciso.

Sim, é preciso relevar as opiniões divergentes, as diferenças, as texturas e tonalidades. É preciso relevar a religiosidade, a falta de entendimento, é preciso. A imaturidade, a infantilidade, a agressividade gratuita. Relevar é preciso.

É preciso relevar a dificuldade em atravessar a ponte, virar a página e esquecer. É preciso relevar e perdoar. Relevar muitas vezes é o processo de perdão antecipado, é perdão dado sem a prévia conversa, é o perdão sem burocracia. Nós relevamos e esquecemos, relevamos e deixamos para trás.

Em alguns casos, a convivência não é possível, mas será que é necessário levar tudo a ferro e fogo? Será que você precisa tirar satisfação por tudo? Será que você precisa entender tudo? Será que as pessoas precisam justificar tudo? Será mesmo que é preciso cobrar explicações? Será que você tem que ser agradado em tudo? Será que tudo precisa terminar em discussão? Não podemos conciliar mais, ouvir mais, ceder mais, entender mais, colocar os sapatos e caminhar a milha do outro?

Levei muito tempo para compreender como é precioso e importante relevar. Entendi que relevar não me faz menor nem melhor, que posso semear justiça quando relevo, e assim perdi grandes oportunidades de semear o amor e a pacificação. Mas fato é que essa semente de amor e tolerância não estavam dentro de mim, portanto, não podia oferecer o que não havia no meu coração. Mas certamente alguns semearam na minha vida e relevaram meus impulsos, minhas reações intempestivas, e não foram poucas vezes! Todos temos nossos momentos.

O fato é que aqueles que amamos, nós relevamos por amor, e aqueles que são levianos conosco nós relevamos por misericórdia, porque não deve ser fácil ser quem eles são. Todos nós temos nossos tropeços. Ninguém é o que é de graça, para o bem ou para o mal. Muitas vezes somos o fruto de uma estrada que machuca e fere, que deforma. Muitas vezes somos o fruto de uma cura milagrosa que Cristo realizou na nossa alma e no nosso caráter. Muitas vezes somos os dois, andando juntos.

É possível relevar e ser sincero, é possível relevar e conversar, é possível relevar abusos e ainda sim impor limites, é possível estabelecer regras que alinhem nossos relacionamentos, é possível relevar e confrontar. O amor de Cristo nos capacita. É possível relevar com amor de Cristo, sem superioridade ou inferioridade, sem soberba espiritual, tão pouco vestindo o avental de vítima.

Relevar é também amar e como diria o profeta: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, ou adaptando: “É preciso relevar as falhas nossas de cada dia como se não houvesse amanhã”.

Seja como Jesus, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, no dia a dia. Releve, seja elegante, seja maduro, seja sensível ao outro, se for para constranger, constranja pelo amor, pela educação, pela capacidade de olhar no olho, pela capacidade de amar.


Miserável Homem Que Sou

Qual é o momento mais importante da nossa caminhada de fé? Para uns, é o instante da conversão. Para outros, é o dia do batismo. Há também os que consideram o momento mais importante a hora da morte, quando finalmente darão o glorioso passo de entrada na casa do Pai. Cada pessoa elege aquele ponto da trajetória com o Senhor que mais marcou sua vida. Tenho também o meu. Claro que sei que todos esses momentos são fundamentais e memoráveis, mas entendo que a conversão e a morte, por exemplo, são os momentos mais importantes de nossa vida. Mas em se tratando da caminhada de fé, ou seja, do bom combate, da nossa trajetória de vida com Jesus, há um dia em que tudo muda e, por isso, o tenho guardado num lugar especial do coração. É quando cai a ficha e você, como Paulo, exclama: “Miserável homem que sou!”.

Naturalmente, na hora da conversão existe uma dose dessa percepção. É quando, pela ação do Espírito Santo, nos enxergamos como condenados ao inferno e dissociados de Deus e, assim, somos rendidos ao Evangelho da graça. Mas há uma diferença entre se perceber um pecador perdido e se perceber um cristão miserável. Pois muitos são convertidos a Cristo, ganham a cidadania do Reino dos Céus, são adotados como filhos de Deus e, a partir daí, deveriam passar a viver de acordo com a natureza de Jesus, sendo mansos e humildes. Mas a realidade nos mostra que muitos e muitos são os que começam a se considerar quase super-heróis. Mais que vencedores. Vitoriosos. Filhos do Rei. Tanques blindados. Bombas atômicas a serviço dos céus, prontos para arrebentar com os ímpios e com os “menos espirituais”. Vestem uma capa de grandeza e passam a considerar o resto da humanidade parte de um segundo escalão de pessoas. É como se manifesta um pecado muito comum a nós, cristãos: a soberba espiritual.

Já vi muitos assim. Arrogantes. Impiedosos. Cujo maior prazer é apontar o cisco no olho do outro. E confesso: eu mesmo já fui assim. Pois não entendia que todo homem de Deus é, antes de tudo, também um homem. Humano. E, como tal, cheio de falhas, crenças equivocadas, arrogância, vaidade e montes e montes e montes de defeitos. Se você é um cristão sincero, olhará para dentro de si e verá o quão problemático e falho é. Mas eu me via como “o eleito”, “o escolhido”. Algo à parte dos demais, tão espiritualmente certo em tudo e muito superior aos cristãos “menos santos”. Falava dos que cometiam pecados (diferentes dos meus, pois eu também sempre pecava) como fracos, frios, fariseus, lobos em pele de ovelha, crentes em quem não se pode confiar. Eu era o tal. Eles eram o joio. Que tremendo bobo eu era, só rindo de mim.

Miseravel2Porque um dia a realidade despencou na minha cabeça como uma bigorna. E foi quando as escamas caíram de meus olhos e enxerguei que, mesmo sendo cristão há muitos anos, continuava sendo um miserável. Que não era melhor do que ninguém. Que meus dons, talentos, ministérios, qualidades, santidade e tudo o mais que havia em mim não era mérito meu, mas do Pai das luzes. Ele me concedeu como empréstimo, não sou dono de nada e posso perdê-los a qualquer hora. Por outro lado, o pecado que cometo é sim mérito (ou demérito) meu. Ou seja: no dia em que você, como cristão, vê claramente que tudo o que tem de bom vem de Deus e o que tem de mau vem de si… aí exclama: “Miserável homem que eu sou!”.

Passei a amar muito mais o apóstolo Paulo quando compreendi como nunca antes o que ele diz em Romanos 7.14ss: “Porque bem sabemos que a lei é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir, pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do pecado”.

Prestou muita atenção ao que leu agora? Paulo – o grande apóstolo Paulo, o homem que foi arrebatado e viu o Céu ainda em vida – vivenciou esse magnífico momento: como cristão, mesmo já com anos de convertido, enxergou o que tantos e tantos em nossas igrejas ainda nãos viram: que nós…

1. Somos carnais
2. Somos vendidos à escravidão do pecado
3. Agimos de modo incompreensível aos nossos próprios olhos
4. Fazemos o que detestamos e não o que preferiríamos
5. Somos habitação do pecado (que percepção assustadora, pois sabemos que também somos habitação do Espírito Santo)
6. Somos fantoches do pecado, que nos leva a agir contrariando o que cremos e o que queremos viver
7. Temos membros obedientes a uma lei que guerreia contra a lei da nossa mente
8. Somos prisioneiros da lei do pecado que está em nossos membros
9. Mesmo salvos, somos miseráveis – pois vivemos dominados pelo pecado

Em outras palavras, mesmo cristãos nós somos miseráveis, pois vivemos o tempo todo sob a sombra de nossa própria pecaminosidade. O dicionário revela o que “miserável” significa: desprezível, torpe, vil, insignificante, reles, ínfimo, desgraçado, infeliz, mísero. Uau. Que soco na boca do estômago de nossa soberba espiritual.

A percepção dessa realidade é extremamente humilhante, nos põe em nosso devido lugar e nos conduz a um ambiente espiritual de profunda submissão a Deus e desapego de nós mesmos. Paulo teve essa percepção: mesmo sendo cristão era um miservável pecador. Alguém que o Senhor precisava permitir ser afligido por um mensageiro de Satanás esbofeteador para que não se exaltasse pela grandeza das revelações que recebeu. Um mero humano, como eu e você.

Miseravel3Honestamente? Quanto mais leio as epístolas paulinas, mais admiro Paulo. E mais me apiedo dos crentes que se apresentam como anjos de santidade. Pois não chegaram ainda ao sublime ponto de admitir que são miseráveis. Vejo muitos que são assim. E isso gera em mim um sentimento misto de pena com tristeza, confesso. Creio ser muito mais digno, bíblico e honesto reconhecer com a boca no megafone: sou cristão, salvo somente pela graça imerecida de Deus, mas ao mesmo tempo carrego o corpo dessa morte amarrado nas costas – o que faz de mim um miserável pecador. Que depende única e exclusivamente da misericórdia do Senhor para continuar respirando, quanto mais entrar no Céu. Pois sei o mal que há em mim e como meu lado sombrio é feio, disforme e animalesco. Como você se enxerga, meu irmão, minha irmã? Você se orgulha da sua santidade ou se abate pela sua natureza humana pecadora?

Chega a ser muito entristecedor ver os “crentes sem mácula” metendo dedos na cara “dos que pecam”, sendo que carregam na alma lodo do pior tipo. Isso é um dos pecados mais falados e criticados por Jesus: a hipocrisia. Já vivi nesse mundo, sei de perto o que é. E reconheço esse meu pecado com temor diante do PaiMiseravel4: pequei por me achar menos pecador do que os demais pecadores. Miserável homem que sou. Ah, que bendito dia em que o Espírito Santo me fez reproduzir essas palavras do apóstolo Paulo! Dia em que enxerguei que não é porque aceitei Jesus que virei um ser angelical, mas que continuo sendo um pecador compulsivo e incorrigivel, totalmente dependente da graça. A diferença é que, sabendo da miserabilidade que existe em mim, consigo chegar com humildade aos pés do Senhor, banhá-los em lágrimas e enxugá-los com meus cabelos. No passado, o crentão que eu era ficaria de pé, nariz levantado, peito estufado, ao lado do Rei dos Reis, e diria: “E aí, Paizão, tamos numa boa, né? Sou teu eleito, meu chapa, gente boa igual a mim não há. E vamos lá mandar esses crentes carnais pro inferno, julguemos juntos, eu e o Senhor, os meus irmãos, pois estou a fim de ver sangue!”.

Sim, aquele foi o dia mais importante. Pois na conversão eu fui salvo, mas me sentia o tal por isso. No batismo saí das águas me achando o puro, o imaculado. Mas no dia em que caí em mim, vi que mesmo salvo continuo pecando sem parar, caí de joelhos, tremi e murmurei: miserável… homem… que… sou…

Gosto de pensar que após a morte irei para o Céu. Não por mim, que não valho nada, mas pela Cruz. Só pela Cruz. Pela graça. Pelo amor. Pelo perdão. Por Jesus. E, ao chegar lá, pode ser que eu ouça “bem-vindo, servo bom e fiel”. Mas acredito muito mais que vou ouvir: “Bem-vindo, miserável pecador. Você não tem mérito algum, mas por causa do sacrifício de meu Filho eu o porei sobre o muito. Venha e participe da alegria do seu senhor!”.

Paulo estava certo: somos miseráveis. Eu, você, todos os cristãos. E bendito seja o Senhor, que pela graça um dia nos chamou para sua maravilhosa luz e tempos depois iluminou a nossa realidade de cristãos pecadores. Não é o seu caso? Então clame a Deus, na esperança de que Ele te mostre o quão miserável você é. Acredite: é uma das maiores bênçãos para a alma que você poderá receber ao longo de toda a sua vida.

Fonte: Apenas (Maurício Zágari)


É Apenas Sexta-Feira

O que fazer quando parece que a sua vida parou no tempo? O que fazer quando parece que nada mais vai acontecer, quando parece que o propósito maior não existe? Ao contrário, era só uma ilusão do seu coração.

O que fazer quando o filho não vem? Quando o casamento não acontece? Quando o sonho morre? Quando sua casa recebe a visita da morte? O que fazer quando parece que tudo o que você viveu foi em vão? O que fazer quando a sua fé não é mais suficiente? E essa mesma abalada fé não sustém mais nenhum pilar no seu coração? Tudo o que sobrou foram os questionamentos: Porque? Para que? Porque eu? Porque não eu?

O que fazer quando a sua loucura é só sua? Quando a solidão é só sua? Quando a dor é só sua? Quando o medo é só seu? O que fazer quando ser você é o propulsor de toda a dor que você sente? O que sobra quando sua “característica especial” é o que te coloca nesse lugar de dor?

O que fazer diante do caos que se estabeleceu na sua alma? O que fazer quando não existe razão para falar? Quando não existe o que falar? Quando não existe para quem falar? O que fazer, quando não há nada que se possa fazer? O que fazer quando a frase “Vai valer a pena” não te diz mais nada?

O que se pode fazer quando sua realidade grita na sua cara: “VOCÊ É UMA FRAUDE!” O que fazer quando o que você “faz” determina o valor de quem você “é”?

O que fazer quando as ondas já não deixam mais você respirar? O que fazer quando a única frase completa que você consegue dizer é: “QUANDO ISSO VAI ACABAR?” Desistir, insistir?

Quando não resta mais nada, tudo o que podemos fazer é esperar. Esperar que as ondas se acalmem, que o vento cesse, que a sexta-feira acabe. Uma coisa é certa, ainda que hoje eu não consiga crer no domingo da ressurreição, ele é real. Não é a minha fé que dá a luz e que gera o amanhecer do domingo. O domingo simplesmente existe e nada nunca vai poder mudar essa realidade.

É uma sexta-feira de morte, mas o domingo vem aí.

“É sexta-feira! Jesus está orando, Pedro dorme, Judas está traindo,
Pilatos reluta, o Sinédrio conspira, a multidão escarnece!
Os discípulos fogem como ovelhas
sem pastor, Maria está chorando, Pedro está negando e o
s romanos ferem meu Jesus!

É sexta-feira! Jesus caminha até o calvário, seu sangue escorre!
Seu corpo tropeça! Seu espírito está oprimido! Mas você entende?
É só sexta-feira!
A vitória é do mundo! As pessoas sempre pecam! E o mal sorri!

É sexta-feira! Soldados pregam as mãos do meu Salvador na cruz!
Eles pregam seus pés naquela cruz! Então eles o suspendem ao lado de criminosos!

É sexta-feira! Os discípulos se perguntam o que aconteceu com o seu rei?
Os fariseus estão celebrando, pois seu esquema funcionou! Mas eles não sabem; é apenas sexta-feira!

É sexta-feira! Ele está pendurado na cruz, sentindo-se abandonado por seu Pai!
Deixado sozinho e morrendo! Poderá alguém salvá-lo?
É sexta-feira! A terra treme,
o céu escurece, meu rei entrega seu espírito! É sexta-feira! A esperança foi perdida!
A morte venceu! O pecado triunfou! Satanás dá gargalhadas!

É sexta-feira! Jesus está morto! Soldados montam guarda! Uma pedra é colocada no lugar!
Mas é sexta-feira! É apenas sexta-feira!
E o domingo está chegando!”


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