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“E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento.

Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora.

Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem.

E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés.

Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. ” (Lc 7.37-48)

Alguns textos dos evangelhos tem um poder incrível de sintetizar a mensagem da graça. Esse é um deles.

Ao meditar nesse trecho do evangelho de Lucas, não consigo parar de questionar: – Que Amor é Esse? Que assombroso amor é esse? Verdadeiramente o amor de Cristo nos constrange, e a graça nos escandaliza! Que momento precioso o de se derramar aos pés do amado, e ali repousar seu coração tão ferido pela vida.

Gosto da narração de Lucas, porque ele entende que se trata de um momento tão poético e histórico que sequer cita o nome da mulher. E ao ler repetidas vezes, sou tomada de assalto por um sentimento quase que de inveja. Como eu gostaria de ter estado ali, pra tocar os pés do amado da minha alma e poder beijá-lo.

Aquela mulher de reputação pra lá de duvidosa entra na sala onde Jesus se encontra com os fariseus e, caminha segura na direção de Jesus, e sem a menor cerimônia, ajoelha-se e lava-Lhe os pés com lágrimas, lança-se aos pés do Senhor, chora e derrama sobre Ele o perfume mais caro, provavelmente o melhor que ela tinha. Jesus não se faz de rogado: entrega os pés aos beijos da mulher.

Jesus simplesmente ignora o burburinho fariseu que se instala naquele lugar, e apenas permite que aquela mulher goze de sua presença e amor. Ele não lhe nega nada, Ele não a questiona. Se quer considera a opção de repreendê-la. E enquanto esse momento poético de entrega sincera desenrola quase em câmera lenta, os legalistas criticam o desperdício de perfume, sugerindo que poderia ser transformado em pão para os pobres, e fazem questão de anunciar em alto e bom som que se trata de uma mulher pecadora. E sabemos que aquelas palavras queriam dizer muito mais, aquelas palavras eram uma acusação a Jesus: se fosse profeta saberia quem é aquela mulher; saberia o seu passado; se fosse como nós condenaria aquela mulher; e colocaria ela em seu devido lugar.

Mas Jesus amados, Ele não é como nós. Ele aceita o perfume, a oferta, a oração, o coração das prostitutas. E Jesus amando-a profundamente, apenas lhe diz é “seus pecados estão perdoados”, e revela que a demonstração de amor era proporcional ao alívio da culpa: “perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou”.

Imagino que a vida daquela mulher não tenha sido mais a mesma, não apenas porque ela se encontrou com o mestre, mas simplesmente porque é impossível, depois de esvaziar o frasco até a última gota viver como antes. Se algum dia você se esvaziou diante do altar, sabe do que estou falando.

Quantos de nós não aceitariam o perfume da prostituta? E se aceitassemos, iriamos nos certificar de que já abandonaram seu caminho de pecado. Afinal, somos máquinas de rotular, e assim vamos institucionalizando a graça. Criamos regras, padrões, processos, parâmetros e premissas. Emolduramos o amor gritante de Deus, e colocamos a graça em um cercado industrial.

E quantos de nós, como prostitutas, não derramamos nossos tesouros, porque achamos que Jesus não aceitaria? Dessa forma vamos vivendo dentro de nossas cadeias particulares, sem viver, o genuíno encontro com o amor do Pai.

O fato é que duas coisas me aproximam daquela mulher. Um desejo impetuoso de me atirar aos pés do mestre, e apenas me permitir ficar ali sem emitir nenhuma palavra, em gratidão, exatamente por saber quem eu sou, e quem Ele é. E é exatamente isso que mais me escandaliza: Ele sabe quem eu sou, e ainda sim não me nega sua presença, e ainda sim me ama, me recebe, me acolhe e aceita o derramar do perfume.

Deus, que amor é esse? Que amor devastador que atravessa as minhas cadeias particulares, que atravessa a minha hipocrisia, minha auto-justificação e me alcança dessa forma tão completa? Que Deus é esse que ignora meus farrapos, minhas sujeiras e ainda sim me ama? Como Tu podes me amar assim? Como pode me amar até a cruz?

E é diante desse Deus que nos ama loucamente, que eu te convido hoje, a derramar até a última gota.

Derrame amado sua gratidão, seu amor, sua adoração, seus talentos e o seu tempo. Derrame também seus sonhos e planos e tudo o que há de mais precioso pra você.

Mas não se esqueça de entregar também as suas dores e angústias, seu coração ferido, sua vida rotulada, seus fracassos, seus erros imperdoáveis, suas ambições secretas, aqueles sentimentos vergonhosos, as ruínas dos sonhos perdidos, derrame os seus fardos pesados, seus farrapos e toda a sua imundice. Ele sabe quem você é, e ainda sim Ele recebe o que você tem para derramar.

Deixe que Ele te receba, que Ele te acolha e que Ele te ame como você é.  Aceite o amor incondicional do Pai. Entenda que  não é o que você faz que determina o seu valor; e sim quem Deus é em você, e o espaço que Ele ocupa na sua vida.

Até a última gota…até a última gota…até a última gota.

“Em silêncio me achego a Ti
E sem forças, atraída sou ao chão
Nos meus olhos, uma lágrima a cair
Como um bálsamo se espalha em devoção

O sentido de viver encontro aqui
Quando aos Teus pés derramo o coração

Cada gota do meu ser te dou
O perfume de minh’alma inteiramente ao seu dispor
Sei quem sou e sei quem Tu és
Por isso estou aqui prostrada aos Teus pés
Pra viver a tua essência
Pra sentir Tua paz em mim
Esvazio este frasco pra enchê-lo mais de Ti

O mesmo pranto eu consigo escutar
A voz de um outro homem a me reprovar
Se soubesse quem está a te tocar
Não a deixaria os Teus pés lavar

Mas de Cristo é a resposta
Sem desprezo no olhar
Perdoado filha está o teu pecar”