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Filha caçula em uma família com dois irmãos homens, nascida em uma família incomum. Todos filhos de pais diferentes, e eu fruto de um adultério.

A dor causada pela desilusão com o meu pai foi grande demais, e minha mãe sem conseguir superar, passou a minha infância inteira dizendo o quanto ela odiava o meu pai, e que ela havia pedido para Deus apenas o meu irmão mais velho, meu irmão do meio e eu, éramos acidentes.

Por parte do meu irmão do meio ouvi coisas terríveis, segundo ele eu havia roubado o seu lugar na família! Com o tempo as palavras deram lugar à agressão física. Sempre que ficávamos sozinhos ele me batia e me agredia verbalmente. Ele chegou ao ponto de queimar as minhas mãos com um ferro de passar roupa, me lembro claramente de correr desesperada e colocar minhas mãozinhas em uma bacia de água, e ver minhas mãos encheram de bolhas na mesma hora. Eu tinha então quatro anos.

Por se sentir culpada, minha mãe o protegia, e todas as vezes em que eu denunciava os abusos dele, ele chorava e ela acreditava nele. Ele fora muito doente na infância, chegou a quase morrer em uma das ocasiões.

Um tempo depois do episódio do ferro, fiquei doente, e precisei ser internada. Perdi o ano no pré, e como precisava de cuidados médicos, minha mãe me levou para o trabalho dela. Eu era a única criança na casa, e aquela decisão mudaria para sempre a minha história.

Nessa época, a carência de uma figura paterna começou a incomodar, e passei a sofrer por não me sentir amada. Minha mãe sempre muito exigente, era uma pessoa muito difícil de ser agradada, e por isso até hoje tenho uma séria dificuldade em receber um elogio, ou acreditar que algo está suficientemente bom.

Foi nesse período também que o Senhor, tão maravilhoso e tão fiel, me deu um pai que apenas Ele poderia dar. Fui “adotada” por uma pessoa, e todo o referencial de amor que recebi na infância veio dele. Como ele me admirava e acreditava em mim, tinha sonhos para minha vida em todas as fases, me amou como eu era, e cuidou de mim até os seus últimos dias. Ele enxergou em mim um futuro bom quando nem a minha mãe enxergava! Emociono-me todas as vezes que falo dele, e sei que ele foi uma providência do Pai para mim. Como o Senhor me amou através daquela vida!

Foi também nessa casa, que algum tempo depois, a figura do meu irmão passou a ser freqüente. Eu não sei dizer exatamente quando, mas foi ali que os abusos, antes morais e físicos, se tornaram sexuais. Ele demonstrava carinho para se aproximar, depois me agredia, abusava e depois me ameaçava. E assim foi por aproximadamente quatro anos. Quando eu completei nove anos, os abusos cessaram, mas o abismo entre nós se consolidou e passamos anos sem nos falar.

Alimentei um ódio imenso por ele, cheguei a dormir com uma faca embaixo do travesseiro por um tempo. Não me sentia digna de ser amada, impura. Pensava em como faria pra contar para o meu futuro esposo que eu não era mais virgem. Era uma tortura.

Evangélica de berço, com onze anos decidi me batizar, e aos doze fui batizada com Espírito Santo. Vivi tantas experiências com o Senhor, a minha adolescência foi aos pés do altar. Tinha sonhos, revelações. Mas nunca me senti livre daquelas lembranças dos abusos e de toda violência que sofri.

Aos 21 anos, após uma ministração, perdoei o meu pai pelo abandono e pela rejeição. Coincidentemente, depois de perder uma pessoa querida decidi conhecê-lo. Depois de uma jornada, procurando-o sozinha, finalmente o conheci. E o melhor de tudo é que não havia ressentimento algum, posso dizer que senti amor pela vida dele no mesmo instante em que nos vimos.

Apesar do perdão, não é possível apagar o passado. Havia uma lacuna de 21 anos em nossas vidas, e continuamos dois estranhos. Virei a página e me afastei dele por amor. Por respeitar que essa lacuna não seria preenchida e que ainda sim, eu seria uma estranha no ninho. E por respeito a minha mãe que se sentia ofendida por eu manter contato com ele.

Muitos anos se passaram, e muitas coisas aconteceram. Errei tanto, pequei muito, me afastei um período da casa do Pai, e um tempo depois voltei.

Em uma ocasião, tive uma experiência sobrenatural, e em uma luta corporal com um demônio, fiquei paralisada enquanto aquele demônio repetia as palavras que o meu irmão me dizia durante os abusos. E pude entender, que o inimigo das nossas almas, tentava marcar a minha história e me paralisar através da dor e do trauma. Mas ainda sim, meus sentimentos não mudavam.

Participei de cultos e ministrações outras vezes, e embora sempre liberasse perdão para vida do meu irmão, não conseguia conviver com ele. Quando ele entrava na casa da minha mãe, eu saia. Nós não nos olhávamos nos olhos. Havia um abismo enorme entre nós!

Até que, há alguns anos atrás, ouvi um chamado do Senhor. Senti que Ele queria me levar um pouco mais fundo, esse chamado veio de encontro a uma sede imensurável por mais de Deus. Eu estava no meio do processo na casa do oleiro, quando fui atraída pelo Espírito Santo a um evento cujo tema era “Nas Mãos do Oleiro”. E ali, naqueles dias de imersão, o Senhor me tratou profundamente, consolidou a cura e me levou ao lugar do perdão. Foi um divisor de águas na minha história. E como sou grata ao Pai, porque Ele não desiste de nós! Verdadeiramente, o amor do Pai nos constrange!

Aquelas palavras ainda ardem no meu coração. E hoje, me emociono quando volto de um encontro em família. É como se nada tivesse acontecido, sabe? Durante aqueles dias, enquanto o Pai me conduzia ao lugar do perdão, a minha família foi restaurada. Passamos as festas juntos agora, e nesse natal, quando percebi, estava de mãos dadas com o meu irmão, e naquele momento meu coração se alegrou agradecido pelo que o Pai fez na minha vida.

Agradeço ao Pai hoje, porque posso falar sem sofrer, sem que haja dor em meu coração. Posso compreender de verdade que “todas as coisas contribuem para o bem daqueles que amam a Deus”, e que Deus não me desamparou como tantas vezes eu pensei. Ele me deu a oportunidade de dizer para tantos outros que viveram histórias semelhantes que há cura no colo do Pai!

Posso dizer que o Pai resgata os órfãos, assim como eu, troca nossas vestes, limpa os nossos corações, coloca um novo cântico em nossos lábios, põe em nosso dedo um anel e faz uma aliança conosco.

Sou grata porque o Pai transformou a minha tragédia pessoal em uma história de esperança e amor.

Sou grata porque houve uma sexta-feira sombria e de dor sim, mas o primeiro raio de sol do meu domingo brilhou no horizonte, iluminando e aquecendo todas as coisas!

E a minha oração hoje é que eu sempre compreenda que a minha dor também coopera para o meu bem; que haja em mim o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, que padeceu até o fim para que pudesse me alcançar em meio a desolação;  que em meu coração haja sempre a convicção de que a minha dor, quando tratada pelo Pai, é transformada em cura e restauração para outras vidas! E a cura amados, tem apenas uma via de acesso: O PERDÃO.

“Teu amor me desfaz
Teu amor me refaz
Quebra tudo e faz de novo, e de novo
Teu amor me desfaz…

És o Deus que me cura
És o Deus que sara a minha dor
És o Deus que me ama
E este amor em Cristo me Salvou
És o Deus que me sonda
És o Deus que conhece tudo o que sou
És o Deus que me ama
E este amor em Cristo me restaurou

Meu Deus, meu Salvador
Teus braços estendidos
Me tocam com amor
Meu Deus, meu Restaurador
O túmulo vazio
Me faz mais que vencedor…”

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Esse é o primeiro de uma série de testemunhos que serão postados aqui. Se você tiver um testemunho que possa edificar outras pessoas, compartilhe. Assim como nesse, sua identidade será preservada.