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“E eis que uma mulher da cidade, pecadora, sabendo que ele estava à mesa na casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento; e, estando por detrás, aos seus pés, chorando, regava-os com suas lágrimas e os enxugava com os próprios cabelos; e beijava-lhe os pés e os ungia com o ungüento.
Ao ver isto, o fariseu que o convidara disse consigo mesmo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, porque é pecadora.Dirigiu-se Jesus ao fariseu e lhe disse: Simão, uma coisa tenho a dizer-te. Ele respondeu: Dize-a, Mestre. Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro, cinqüenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou-lhes a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? Respondeu-lhe Simão: Suponho que aquele a quem mais perdoou. Replicou-lhe: Julgaste bem.
E, voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; esta, porém, regou os meus pés com lágrimas e os enxugou com os seus cabelos. Não me deste ósculo; ela, entretanto, desde que entrei não cessa de me beijar os pés. Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta, com bálsamo, ungiu os meus pés.
Por isso, te digo: perdoados lhe são os seus muitos pecados, porque ela muito amou; mas aquele a quem pouco se perdoa, pouco ama. Então, disse à mulher: Perdoados são os teus pecados. ” (Lucas 7.37-48)

Sou fruto de uma família disfuncional. Desde o útero de minha que mãe tive lutar pela vida, lutar para sobreviver, já que meu nascimento não era desejado por meus pais, e minha mãe tentou me abortar.

Mesmo não conseguindo, ela não desistiu da idéia, ela ainda não me queria, e quando eu tinha nove meses ela me abandonou.

Dez anos se passaram, fui criada com muita violência por meu pai e por minha madrasta, cerceada de tudo (amor, carinho, respeito, cuidado, atenção, dedicação e informação) que uma criança necessitava, eu sobrevivi pela misericórdia de Deus, eu sobrevivi.

Quando eu tinha dez anos de idade meu pai foi assassinado na porta de casa, e fiquei sem ninguém, apesar do relacionamento que existia entre nós, apesar de toda violência, das agressões verbais e físicas, eu sabia que aquela era a forma que ele encontrara para expressar toda a raiva e mágoa que sentia pelo que minha mãe nos fizera, ele descontava em mim, mas ainda sim ele era o meu pai.

Foi quando minha mãe foi me buscar, em dez anos nunca tínhamos nos visto, nem nos falado. Foram dez anos de absoluto abandono. E cheguei a pensar que o sofrimento havia acabado, mas me enganei, ela só foi nos buscar por que esperava receber uma possível herança, o que não aconteceu.

Fui abusada sexualmente pelo meu padrasto, no começo era um assédio sutil, com a desculpa dele de me proteger de minha mãe, já que ela verdadeiramente era minha algoz. A forma desumana que ela me tratava era pública e notória, me escravizava fazendo serviços domésticos, os quais uma criança de dez anos não poderia fazer.

Por alguns momentos aquela suposta proteção do meu padrasto era boa, pois ele me protegia das maldades da minha mãe, mas o preço daquela “proteção” foi alto.

O tempo passou, e dois anos após os abusos começarem, num rompante, meu padrasto me violentou. Decidi que não aceitaria mais aquela situação, ele respondeu com ameaças, deixaria que minha mãe me colocasse para fora de casa. E foi o que aconteceu.

Aos treze anos de idade, cheguei a viver nas ruas, nas praças desta grande cidade, sozinha, desprotegida e sem ter ninguém, tudo por que não me deixei ser mais violentada. Eu não conseguia entender porque tudo aquilo estava acontecendo!

É tão difícil conter as lágrimas neste momento! Não consigo deixar de me lembrar da solidão, do sentimento de abandono tão latente na minha alma, e não consigo esquecer que eu era apenas uma menina.

Sem saber o que fazer, e me sentindo sem escolha diante de toda aquela tragédia, me vi obrigada a aceitar ser uma prostituta de luxo, se é que se pode ter luxo em ser prostituta. Um homem muito mais velho que eu, irmão do meu padrasto, me oferecera um quartinho de 2mtx2mt. Essa “bondade” também me custou muito caro.

Ele sempre deixou claro, que jamais assumiria qualquer responsabilidade comigo, que não iria assumir as responsabilidades de ninguém (referindo-se ao seu irmão). Como se o que o irmão dele fizera fosse pior do que o que ele também fazia. É impressionante a ótica do abusador, e como a mente doente deles tem valores totalmente deturpados por Satanás.

Essa situação se estendeu por quinze longos anos, quinze anos escrava, quinze anos acorrentada por Satanás, durante este período foram duas tentativas de suicídio, dois filhos, um aborto. Durante quinze anos, perdi a conta das vezes em que fui estuprada, sodomizada, espancada e das vezes em que cedi para não apanhar, durante quinze anos temi viver novamente o desespero de estar na rua sem casa, sem destino, sem norte.

Durante este tempo não houve um só dia que não me sentisse usada e ferida em minha sexualidade. E eu pensava: Quantas vezes mais este monstro vai rasgar meu corpo? Quantas vezes mais?

Era tão confuso, e foram tantos anos de convivência, os dois filhos lindos que tive, que passei a acreditar que poderíamos formar uma família, embora, minha percepção de família e lar estivesse totalmente deturpada, eu não sabia realmente o que significava isso, mas eu desejava ter uma família, e minha auto-imagem era tão baixa que eu acreditei que era aquilo que eu merecia da vida. Ele, por sua vez, sempre deixou claro qual era a minha função ali: sexo, em troca ele me daria condições para viver.

Passei a buscar em outras pessoas, o amor e o cuidado que eu precisava, fiz isso também como forma de me vingar daquele homem que tanto me fazia sofrer, mas isso me causou mais dor. Sempre fui deixada por estes supostos amores e retornava para minha prisão e ele me aceitava desde que minha função fosse respeitada. Eu o traia, em nome do ódio, mas não percebi que estava me autodestruindo.

Procurei em homens o amor e o cuidado que só conheci nos braços de Cristo. O amor e o valor que me foi negado, o meu Senhor Jesus me ofereceu naquela cruz.

Há cinco anos, no fundo do poço, resolvi dar um basta àquela situação. Fui embora daquela vida e daquele lugar, deixei tudo para trás, e segui este Deus que me amou primeiro.

E durante este período tenho experimentado o que é ser lavada e remida pelo sangue de Jesus. Todos os dias, sinto-me como aquela prostituta tão indigna aos pés do mestre, lavando os seus pés com o perfume da minha alma. Sei quem eu sou, sei qual é o meu passado, e me escandalizo porque sei que Ele me recebe, me aceita, me ama e me perdoa. Mas além de saber quem eu sou, eu também sei que o Pai ainda irá me refazer, irá retirar todas as minhas dores, e transformará a minha tragédia pessoal em um testemunho de edificação para outras vidas.

Não posso mentir e dizer que está sempre tudo bem, porque não é verdade, mas tenho vivido milagres. Ainda vivo as consequências daquela vida promíscua, mas hoje me agarro ao sacrifício da Cruz, pois o meu Senhor me amou e me aceitou da forma que eu estava, ainda tão suja pela lama do pecado.

Luto com as armas de Cristo contra um quadro de depressão severa, mas ainda assim, se tivesse que escolher entre aquela vida imunda, ainda que com muitas riquezas, e a vida que tenho hoje de privações em todos os sentidos, escolheria todas estas minha lágrimas aos pés da cruz de Cristo. Eu prefiro Cristo!

“A minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo.” (2 Co 12.9)

É verdade que a minha escolha me conduziu a uma caminhada solitária. Amigos, família, meu filho… Todos se foram, mas eu continuo avançando, dando um passo por vez, confiando que o Pai irá completar a obra que começou, e que ao fim dessa jornada, ao olhar para trás, poderei dizer que combati o bom combate, acabei a carreira e guardei a fé.

Confesso que muitas vezes nem sei quem sou como pessoa, mas sei quem quero ser em Cristo amados, sei quem Cristo quer que eu seja e isso tem me confortado. Sou filha amada, não mais a filha rejeitada, sou a mulher perdoada, e não mais a mulher violentada, ou prostituída, e hoje meu referencial de família e de amor vem de Deus.

Ele tem me ensinado a sonhar, mesmo contra as circunstâncias, e é o amor de Cristo que me desfaz, e refaz…É o amor de Cristo que alcança a nós, todos os inalcançaveis, aqueles, que como eu, são tão imundos que ninguém mais quer tocar…É o constrangedor amor de Cristo que me conduz e me faz prosseguir.

Estou certa queridos, de que Cristo não tem para nós apenas novas vestes, mas tem também novas identidades amados, tem novos sentimentos, novos valores, novas personalidades, novos sonhos, novas histórias.

“Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é; as coisas velhas já passaram;
eis que tudo se fez novo.” (2 Co 5.17)

Este novo momento espero compartilhar com vocês em breve!

“O Teu amor é maior que o meu pecado
O Teu amor é mais forte que a minha dor
O Teu amor demonstrado no Calvário
Vai mais além do que eu possa imaginar

O Teu amor quebra todas as correntes
O Teu amor toca quem ninguém quer mais tocar
O Teu amor que venceu a própria morte
Vai mais além do que eu possa imaginar

O Teu amor, Senhor Jesus, não tem limites
É incomparável, irresistível
Ninguém é mais o mesmo ao se encontrar contigo
És incomparável, irresistível

Ninguém tem maior amor
Dar a vida pelo pecador
O Teu amor demonstrado no calvário
Vai mais Além do que eu possa imaginar…”