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“Por essa razão, ajoelho-me diante do Pai, do qual recebe o nome toda a família nos céus e na terra. Oro para que, com as suas gloriosas riquezas, ele os fortaleça no íntimo do seu ser com poder, por meio do seu Espírito, para que Cristo habite no coração de vocês mediante a fé; e oro para que, estando arraigados e alicerçados em amor, vocês possam, juntamente com todos os santos, compreender a largura, o comprimento, a altura e a profundidade, e conhecer o amor de Cristo que excede todo conhecimento, para que vocês sejam cheios de toda a plenitude de Deus. Àquele que é capaz de fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos, de acordo com o seu poder que atua em nós, a ele seja a glória na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre! Amém!” (Efésios 3:14-21)

Orar é colocar-se de joelhos “diante do Pai, do qual recebe o nome toda a família nos céus e na terra”, e clamar pela ministração do seu poder. Orar é buscar a força do poder para fortalecer nosso ser interior. Orar é um ato de rendição ao poder de Deus que atua em nós. Orar é clamar pela manifestação da “incomparável grandeza do poder de Deus […] Esse poder ele exerceu em Cristo, ressuscitando-o dos mortos e fazendo-o assentar-se à sua direita, nas regiões celestiais” (Efésios 1:19-20). A oração, portanto, é o momento quando estão em perspectiva a sexta-feira da paixão, o sábado de aleluia e o domingo da ressurreição.

A sexta-feira da paixão de Cristo representa o momento máximo da prepotência humana, que opta por “matar Deus”, encarcerar as possibilidades da vida numa cruz sanguinolenta e cruel e aprisionar o universo nos limites estreitos e funestos das capacidades da criatura, em detrimento dos horizontes eternos do Criador. A sexta-feira da morte de Jesus na cruz do Calvário aponta para um mundo em plena e total escuridão. O inferno está em festa e o mundo condenado ao sofrimento e ao horror dos poderes da morte e da destruição. O mal mostra suas garras e os poderosos deste mundo tenebroso assumem o controle do mundo e da vida-morte.

O sábado chamado de aleluia é o dia seguinte da morte de Deus. Mas é também o dia anterior da ressurreição do seu Cristo. Os discípulos de Jesus são comunidade da esperança: aguardam a ressurreição. Mas uma comunidade encerrada entre as paredes do medo, da covardia e da morte da utopia, razão suficiente para sua passividade. No mundo sem Deus a esperança não tem vez nem voz.

Mas o sol se levanta no domingo da ressurreição. E com ele se ergue das cinzas o Deus que “é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo o que pedimos ou pensamos”. Ninguém imaginaria ou conceberia algo assim: o frágil e humilhado homem de Nazaré era mesmo Deus. Nem mesmo o inferno imaginou que seu pseudo poder seria desmascarado justamente ao se mostrar absoluto, pois caso soubesse que na cruz de Jesus pendia o Cristo de Deus, jamais se atreveria a tal afronta (1Coríntios 1:8). Na cruz do Calvário se manifesta o mistério da redenção, nas palavras de John Owen: “a morte da morte na morte de Cristo”, pois na ressurreição de Jesus “tragada foi a morte pela vitória”, e agora podemos cantar: “Onde está, ó morte, a tua vitória. Onde está, ó morte, o teu poder de ferir?” (1 Coríntios 15:54-55).

A oração é fala de quem acredita que as nuvens tenebrosas se dissipam no ar. É declaração de quem crê que o inusitado pode acontecer, o inesperado pode irromper, o novo pode surgir a qualquer momento. Orar é acreditar que a história pode encontrar caminho de vida. A oração é a palavra final de quem, juntamente com Cristo, amanheceu no domingo da ressurreição.

Ed René Kivitz