Há algumas semanas eu estava com o meu esposo no aeroporto de Congonhas quando conheci o Leandro. Leandro é um engraxate, que trabalha no aeroporto para ajudar a mãe e seus dez irmãos.

Leandro nos abordou em busca de comida, e Deus nos honrou, nos dando a oportunidade de sentarmos com alguém tão ilustre e tão digno e juntos dividirmos uma refeição! Para resumir, terminamos aquele encontro entregando mantimentos que compramos ali perto para sua mãe e falando do amor de Jesus. Tão perdida, sua mãe começou a chorar na rua mesmo ao ouvir o quanto Deus se importava com suas angustias e com a sua fome!

Esse encontro passou a me incomodar demais. Tanto que não consegui organizar minhas idéias e precisei de tempo para processar os meus sentimentos para sentar-me e escrever com clareza a minha inconformidade!

Eu encontrei uma criança carente, “fiz a minha parte”, e supri suas necessidades naquele momento. Estendi minha ação para toda sua família, e você certamente dirá:  Glória a Deus! Talvez você até se emocione com o meu relato e com os detalhes do que aconteceu naquela tarde. Onde pode caber o meu incomodo?

Meu inconformismo mora na postura que identifico em mim, e na igreja que vive hoje um evangelho filantrópico. Um evangelho que envia mas que não vai. Nos tornamos patrocinadores de alguém que ama, de alguém que está disposto, de alguém que renuncia.  Sem compromisso algum somos apenas filantropos.

Nenhum de nós quer deixar sua vida perfeitinha para se sujar com quem precisa. Mas nossa consciência precisa de um afago, nós precisamos nos sentir “bons”, e na busca pela bondade em nós, vamos lá e damos uma esmolinha.

O “trabalho sujo” ficou para os missionário, sofrer é para missionário, renuncia é para missionário! O missionário vive em meio aos pobres, tira piolho, dá banho, se assenta na mesma mesa, come da mesma comida. Parece que viver assim está no “pacote” do missionário. Enquanto que para as outras classes está reservada a HONRA.

HONRA! HONRA! HONRA! Nosso entendimento acerca de certas coisas não vem de um coração apenas conformado com este século, mas de um coração PROSTITUÍDO! Nós nos vendemos por qualquer carro, casa, assento no altar, luzes e reconhecimento!

Nesse final de semana ouvi de um pastor querido que nossos bens são o sinal da honra de Deus sendo manifestada em nós! Baseado em Ester 6:6 “Que se fará ao homem de cuja honra o rei se agrada?”,  defendeu a honra de Deus por meio de bens.

Enquanto ele alegremente fazia sua exposição, eu pensava: Será que meu coração agrada mais ao Senhor do que o coração de uma criança de rua que não teve opção? Será que eu sou mais fiel do que aquele que mora em uma favela porque não teve opção? Será que meu coração é mais limpo do que o homossexual que foi violentado ainda menino? Seguindo esse principio da “honra”, todos os bem sucedidos são os que agradam ao Senhor? São esses a quem DEUS deseja honrar? Os demais não são dignos?

Sei que esse “pseudo” evangelho é a introdução do triufalista e do evangelho da prosperidade, mas o fato desse evangelho ainda não ser a maioria, não muda a realidade de que vivemos o evangelho que não se envolve. Esse evangelho que não se envolve é sim MAIORIA absoluta.

Ninguém quer se comprometer com as crianças de rua, com o homossexual, nem com a prostituta, muito menos com o idoso, ou pessoas com necessidades especiais. Nossa saída é fingir que não acontece, e quando alguém toca no assunto, nós OFERTAMOS. Quer dizer PAGAMOS para que ALGUÉM vá e resolva, ou pelo menos nos represente! No máximo, nós levantamos um clamor no culto, e em seguida voltamos ao cotidiano!

Isso é o amor de Deus? Acho que não. Somos amantes de nós mesmos, das nossas rotinas, das nossas vidinhas perfeitas, do nosso comercial particular de margarina. Somos amantes dos nossos cultos na igreja com conforto, do microfone, da banda, das luzes. Somos amantes da TV, da roupa com bom corte, da boa comida, do bom corte de cabelo, do shampoo de qualidade, do sabonete bom. Somos amantes do cinema, da arte, da boa música, dos sítios, das piscinas, das praias, do lazer!

Somos amantes do nosso próprio prazer e conforto! Afinal: EU MEREÇO!

Não faço aqui uma apologia à vida de um monge beneditino. Mas olho para minha própria vida e constato: EU TENHO TANTO! Tanto que não consigo usufruir de tudo o que posso! E existem tantos perdidos no meu bairro que precisam do mais básico! E eu escolho viver alheia a realidade de quem não tem! Mas eu não posso viver assim! O que queima meu coração não me permite viver como se não soubesse!

A verdade é que NÓS tapamos os ouvidos para aqueles que choram, e assim tapamos os ouvidos para o DEUS que chora pela nossa geração!

Que DEUS encontre espaço em nós, e que tenha misericórdia de mim, me livrando da mediocridade! Que ELE me liberte da religiosidade e da dureza do meu coração! Que ELE me faça livre para não precisar de mais nada!

“Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o Reino dos Céus. Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra. Bem-aventurados os que choram porque serão consolados. Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça porque serão saciados. Bem-aventurados os misericordiosos porque alcançarão misericórdia. Bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus. Bem-aventurados os pacíficos porque serão chamados filhos de Deus.”