Eu relevo, tu relevas, ele releva, nós convivemos.

Relevar é uma arte democrática e popular, que todo mundo pode e consegue exercer, se quiser fazer. Sim, porque é preciso uma grande dose de boa vontade.

Relevar é um dos grandes segredos dos casamentos que duram décadas, de amizades que perduram, da nossa permanência em empresas ou igrejas, de relacionamentos entre pais e filhos, primos e primas, irmãos e irmãs. Mas até mesmo nas nossas relações menos íntimas, relevar também é preciso.

O mau humor do porteiro do prédio, o pisão no pé que você levou no metrô, aquele amigo bafudo, uma trombada na rua. Relevar é preciso. Humilhação, omissão, ignorância, maledicência, covardia, maldade alheia, fofoca. Relevar e perdoar é preciso.

É preciso relevar o papo repetitivo das vovós, é preciso relevar a falta de paciência dos vovôs, é preciso relevar a TPM feminina, e o mau humor depois que o time perde. Relevar é preciso.

A palavra dita na hora errada, a palavra dita de forma errada, o domínio do controle remoto, a folga do amigo espaçoso. Pés no seu sofá, relevar é preciso.

Sim, é preciso relevar as opiniões divergentes, as diferenças, as texturas e tonalidades. É preciso relevar a religiosidade, a falta de entendimento, é preciso. A imaturidade, a infantilidade, a agressividade gratuita. Relevar é preciso.

É preciso relevar a dificuldade em atravessar a ponte, virar a página e esquecer. É preciso relevar e perdoar. Relevar muitas vezes é o processo de perdão antecipado, é perdão dado sem a prévia conversa, é o perdão sem burocracia. Nós relevamos e esquecemos, relevamos e deixamos para trás.

Em alguns casos, a convivência não é possível, mas será que é necessário levar tudo a ferro e fogo? Será que você precisa tirar satisfação por tudo? Será que você precisa entender tudo? Será que as pessoas precisam justificar tudo? Será mesmo que é preciso cobrar explicações? Será que você tem que ser agradado em tudo? Será que tudo precisa terminar em discussão? Não podemos conciliar mais, ouvir mais, ceder mais, entender mais, colocar os sapatos e caminhar a milha do outro?

Levei muito tempo para compreender como é precioso e importante relevar. Entendi que relevar não me faz menor nem melhor, que posso semear justiça quando relevo, e assim perdi grandes oportunidades de semear o amor e a pacificação. Mas fato é que essa semente de amor e tolerância não estavam dentro de mim, portanto, não podia oferecer o que não havia no meu coração. Mas certamente alguns semearam na minha vida e relevaram meus impulsos, minhas reações intempestivas, e não foram poucas vezes! Todos temos nossos momentos.

O fato é que aqueles que amamos, nós relevamos por amor, e aqueles que são levianos conosco nós relevamos por misericórdia, porque não deve ser fácil ser quem eles são. Todos nós temos nossos tropeços. Ninguém é o que é de graça, para o bem ou para o mal. Muitas vezes somos o fruto de uma estrada que machuca e fere, que deforma. Muitas vezes somos o fruto de uma cura milagrosa que Cristo realizou na nossa alma e no nosso caráter. Muitas vezes somos os dois, andando juntos.

É possível relevar e ser sincero, é possível relevar e conversar, é possível relevar abusos e ainda sim impor limites, é possível estabelecer regras que alinhem nossos relacionamentos, é possível relevar e confrontar. O amor de Cristo nos capacita. É possível relevar com amor de Cristo, sem superioridade ou inferioridade, sem soberba espiritual, tão pouco vestindo o avental de vítima.

Relevar é também amar e como diria o profeta: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã”, ou adaptando: “É preciso relevar as falhas nossas de cada dia como se não houvesse amanhã”.

Seja como Jesus, nas pequenas coisas, nos pequenos gestos, no dia a dia. Releve, seja elegante, seja maduro, seja sensível ao outro, se for para constranger, constranja pelo amor, pela educação, pela capacidade de olhar no olho, pela capacidade de amar.