Há alguns anos quando Deus me disse que eu deveria sair de onde eu estava, deixar um trabalho que eu amava sem me dizer o que aconteceria depois, eu não imaginava tudo o que eu viveria depois daquilo, nem de longe eu poderia imaginar tudo o que aconteceria depois daquele passo em obediência. Apesar de ter dado um passo no escuro, meu coração tinha expectativas ocultas, afinal eu era bem sucedida naquilo que eu fazia, então, como eu poderia sair para o nada? Não fazia sentido. Não faz sentido. Mas quando eu busco um sentido lógico eu me esqueço do princípio básico que Deus estabeleceu quando enviou Jesus: Ele não veio fazer sentido, Ele veio confundir.

O fato é que eu sofri muito quando me percebi nesse vão que fica entre o que foi e tudo o que poderia ser, meus sentimentos ficaram presos no passado, e me amargurei porque não via valor em nada que fazia, e não compreendia o que Deus queria me ensinar. A verdade é que eu precisava me render e deixar que Ele me moldasse, apenas isso. Mas eu não conseguia e eu lutei contra Deus, bravamente e ferozmente. E soa engraçado porque como é possível lutar com Aquele que é INVENCÍVEL? Ele sempre vai nos vencer pelo cansaço, e quando enfim eu estava esgotada e quebrada, eu perguntei pra Deus: “O que você quer que eu faça afinal?” E Ele me respondeu: “Nada, eu não quero que você faça nada. Eu só quero o seu amor, eu só quero o seu coração por inteiro. Me ame!”.

Essa foi a minha tentativa de negociar com Deus, eu faria o que Ele queria e Ele faria o que eu esperava que Ele fizesse. Compreende? Mas caminhar com Deus em intimidade joga fora TODA lógica, e essa resposta simples me desmontou, mas arrogante que sou pensei: “UAU! Era só isso?” Pode rir, eu sei que é ridículo. Aquilo que Deus queria me pareceu muito simples no primeiro momento! Mas a nossa jornada cristã nunca é simples como parece ou como planejamos, nossa estrada não é nivelada, a caminhada cristã é essencialmente DESAFIADORA.

Quando eu compreendi o que Deus queria, e meu coração passou a perseguir esse ideal, aconteceu um imprevisto, desses que acontecem sabe? Eu sofri um ataque de alguém íntimo, uma pessoa ferida me feriu, porque é isso que pessoas feridas fazem. E eu fiz aquilo que eu não poderia ter feito, eu não corri pra Jesus, eu não corri aos pés da cruz, e tão pouco corri para o colo do Pai. Não fiz nada disso, eu fiz o que eu nunca fazia, eu liguei para uma amiga, e a ouvi dizer: –“Você espiritualiza demais as coisas, você protege as pessoas, elas são más e você precisa aceitar isso”.

O problema não está no que eu ouvi, mas está no exato ponto em que aceitei aquela palavra como verdadeira, e quando eu fiz isso eu caí no mais profundo abismo. Naquele momento uma brecha se abriu, e eu passei a receber sugestões malignas na minha mente, nos meus sentimentos, e eu entrei numa cadeia sequencial de pensamentos e deduções sobre Deus, e você pode imaginar o que aconteceu. Em um determinado momento eu concluí que Deus não havia me protegido, que tinha prazer em fazer o ser humano sofrer e que eu não merecia passar por aquilo. Bingo! Me senti uma vítima, e meu coração se rebelou contra Deus.

Você sabe o que foi mais interessante nesse processo? É que não demorou muito para eu perceber onde havia me enfiado, mas ter a consciência apenas simplesmente não me tirava daquele lugar, eu não conseguia sair, era como se houvessem rédeas me segurando, e por mais que eu lutasse, era como uma areia movediça, quanto mais eu me movia tentando sair, mais eu me sentia enredada por aqueles sentimentos e pensamentos, e na medida que o tempo foi passando eu me tornei uma pessoa amargurada e sufocada, sem fé e sem brilho. Eu perdi a vida, e descobri que não podia existir sem ELE, e sabe quem eu entendi? Ele mesmo, o próprio Judas. Sem entrar no detalhe das atitudes, mas pensando basicamente em como Judas poderia viver SEM Ele? Como Adão conseguiu existir longe dAquele com quem Ele conversava todos os dias? Quem pode viver longe da PRESENÇA SANTA? Quem pode viver normalmente como se não O tivesse conhecido? Como respirar depois de PERDÊ-LO? Me lembrei de uma frase de Agostinho, muito apropriada:“Senhor é difícil te seguir, mas é impossível te deixar!”

Eu gostaria de dizer que naquele dia em que eu fiz aquele telefonema que não deveria ter feito eu estava vulnerável, mas não, eu não estava. Eu estava cheia de Deus! Naquele dia eu havia ministrado, e Deus veio naquela ministração, os céus se romperam sobre nós. Foi uma bênção! Mas eu fui pega de surpresa no meu orgulho pelas coisas boas que já tinha feito, e esse momento isolado me ensinou duas coisas: Pessoas carnais vão te dizer coisas carnais e precisamos ser radicais quanto ao nosso discernimento e escolhas em momentos de crise,  a segunda lição na prática é que QUALQUER pessoa, num instante de distração pode cair. Quem nos sustenta é o ETERNO e ponto, porque o homem por si só não se mantém em pé. O que nos sustenta é a GRAÇA e a misericórdia de Deus, e se não fosse Ele amados, nós seríamos consumidos pelo fogo.

No fim desse processo, aprendi que Deus não queria me fazer sofrer, Ele queria me curar da necessidade das muletas do ministério, da necessidade de fazer algo relevante, de receber a gratidão das pessoas, da necessidade de ter algo pra contar, queria me fazer livre da necessidade do altar, eu entendi que a minha vida era o altar que Ele desejava. Compreendi que Ele desejava que eu o amasse ainda que não houvesse mais nada, que eu O buscasse pelo prazer de estar com Ele e não porque era preciso, sem expectativas, sem promessas, ainda que restasse apenas o silêncio.

Levou um ano para que Deus deixasse de me resistir. A rebelião é fruto de três sementes: orgulho, soberba e ingratidão, e Ele resiste ao coração que produz esse fruto que o meu coração produziu, e a única arma que pode quebrar essa sequência é a rendição e a humilhação, ninguém pode se aproximar de Deus por outra estrada, não há nenhum outro caminho. E em uma noite de adoração eu me joguei no chão desesperada de saudade, e Ele correu ao meu encontro, me beijou no rosto, trocou as minhas vestes, colocou no meu dedo um anel com o Seu selo, e me calçou. Naquela noite Ele me resgatou da mais densa escuridão que eu já havia experimentado, e pôs os meus pés em um alto e seguro rochedo.

Preciso dizer que tudo mudou depois daquele dia. Alguma coisa mudou dentro e fora, e rompeu de uma forma que apenas ELE poderia fazer. Tenho vivido experiências incríveis com o Senhor, nesses últimos anos o Senhor me levou para tantos lugares, realizou sonhos lindos que eu nem imaginava, me deu novos amigos, amigos apaixonados por Ele que me encorajam e me inspiram, nos confrontou com a igreja perseguida (sobre isso eu quero me aprofundar em outro texto) e eu tenho experimentado o poder da palavra e um caminhar mais íntimo com Ele.

Agora eu experimento a paz de saber que estou onde Ele deseja que eu esteja, sem sofrer por antecipação, sem sonhos pretensiosos para o meu futuro com Ele, vivendo um dia de cada vez, experimentando a dependência e a confiança nAquele que me conduz pelo caminho. Ainda inquieta sim, ainda desejando mudar o mundo sim, mas agora sei que o meu GUIA está no barco e que não estou só, e se as ondas se levantarem, sei que é momentâneo, Ele está no barco e Ele tem planos para nós.

Meu desejo e projeto de vida?
Viver para Ele e morrer por Ele.
Arrancar suspiros e sorrisos do coração do Pai.
Alegrá-lo com a minha existência, porque me pareço com Ele.
Quero que Ele saiba que eu lutei de forma feroz para que o Reino dEle seja estabelecido nesta terra por onde eu passar.
Quero que quando Ele precisar dividir seu coração com alguém, Ele corra seus olhos pela terra e ao me ver ele possa dizer: Minha busca terminou, eu encontrei alguém! Alguém pequeno, mas com uma fome imensa da minha presença.
Quero que o meu coração cante uma canção eterna que O mova na minha direção.
Quero ser a casa favorita, a morada predileta, o coração mais ensinável.
Quero que Ele possa dizer sobre mim o mesmo que disse sobre a mulher do vaso de alabastro: Ela muito me amou!

E eu mal posso esperar pelo grande dia, aquele dia, em que nós vamos nos encontrar novamente, quando enfim voltarei para casa e para os braços do meu Pai. E sabe o que eu sinto? Que Ele me espera ansiosamente, que Ele espera ansiosamente pelo momento em que poderá me abraçar! E você, pode sentir o mesmo? Porque essa é a verdade, Ele espera ansioso pelo instante em que poderá te olhar nos olhos, te chamar por um nome que Ele escolheu e dizer: Vem meu filho, eu estava te esperando!